Terça-feira, Março 20, 2007
CINEMA
Um outro olhar sobre nossa Roliúde
Publicado em 18.03.2007 Jornal do Commércio



Diretora quer mostrar que Cabaceiras tem mais a oferecer do que o cenário para filmes que retratam um Nordeste árido e atrasado

KLEBER MENDONÇA FILHO

Um dos filmes que poderá gerar relevante discussão na próxima edição do Cine PE, que acontece no próximo mês, vem da vizinha Paraíba. Cabaceiras (2007, 15 mins.), primeiro filme de Ana Bárbara Ramos, foi selecionado para a competição nacional de curta-metragem 35mm do festival pernambucano, e lá terá a sua estréia. Com clara inquietação e senso crítico, questiona uma certa identidade cultural confirmada repetidamente em relação à imagem do Nordeste e, por tabela, da idéia de ser nordestino. O foco é o cinema e a personagem principal é a localidade de Cabaceiras, no Sertão paraibano, que virou espécie de cenário favorito do cinema e TV brasileiros quando o assunto é retratar o Nordeste dentro da sua imagem folclórica.

Ana Bárbara, que é jovem e mora em João Pessoa, faz parte de uma geração que não aceita tão positivamente a idéia de uma representação monocultural que há muito é discutida, especialmente na área de cinema. Da mesma maneira que esperam-se filmes urbanos de São Paulo, há uma tendência (que já se dissipa, felizmente) de se esperar filmes com cabras e chão rachado do Nordeste, idéia estabelecida logo na abertura do filme, onde um jornal televisivo de abrangência nacional anuncia que "em Cabaceiras a grande estrela é o bode".

Essa questão da representação via cinema e TV é um tema quente para observadores mais atentos da produção audiovisual. Num mundo onde a globalização consiste de os grandes enviarem informações massificadas para os pequenos (e quase nunca no sentido oposto), um filme como Cabaceiras tenta questionar este sistema de representação que vê no lugar, localizado no chamado Cariri paraibano, e com 4.275 habitantes, um estúdio a céu aberto, ou uma "roliúde nordestina".

O curta-metragem lida com o que alguns vêem como a realidade, outros como a projeção de estereótipos para exportação via imagem, algo que pode ser sentido na forma como, por exemplo, uma novela feita no Sudeste retrata o Nordeste, ou como um filme americano refere-se ao Brasil, vide o recente Turistas, obra de terror onde estrangeiros perdiam órgãos vitais (sem anestesia) em praias paradisíacas brasileiras.
Em entrevista ao JC, Ana Bárbara nos disse que "nos últimos nove anos, Cabaceiras transformou-se na locação perfeita para se falar de um Nordeste rachado pelo sol". É uma idéia bem tradicional de Nordeste, que ignora o lado urbano da região e mesmo as mudanças que tem sacudido esse cenário social e cultural.Sem entrar nos méritos ou deméritos das obras, ela cita os filmes São Jerônimo (RJ, 1999), de Júlio Bressane, Eu sou o servo (PB, 1998), de Eliézer Rolim, O auto da Compadecida (RJ, 2000), de Guel Arraes, Viva São João! (RJ, 2001), de Andrucha Waddington, Tempo de ira (RJ, 2003), de Gisella de Mello e Marcélia Cartaxo, Madame Satã (20022), de Karim Aïnouz, Cinema, aspirinas e urubus (PE, 2005), de Marcelo Gomes, Canta Maria, (SP, 2006, Francisco Ramalho Jr), e Romance (2007, em produção), de Guel Arraes, todos filmados em Cabaceiras e que abordam temas como o cangaço, a seca, a pobreza e o folclore. "Com as exceções de Bressane e Waddington, os filmes retratam um Nordeste que parou no tempo, até 1940 "Tempo de ira se passa em dois momentos: 1940 e 1970", enfocam as secas que assolaram a região, a idéia de que sair é a melhor solução", observa.

A realizadora aponta que "o povo de Cabaceiras gosta muito desse assédio cinematográfico, é motivo de orgulho ser locação constante, com a presença de atores globais na cidade. A prefeitura faz a sua parte, apoiando os que querem filmar", continua Ana Bárbara, lembrando ainda que o cinema movimenta financeiramente a localidade. Um dos personagens entrevistados no filme, Paulinho de Cabaceiras, diz que "a indústria do cinema retrata a indústria da seca para obter benefícios próprios", sugerindo simetria entre o antigo sistema de perpetuar a idéia de flagelo subsidiado, nesse caso relacionado à representação filmada da pobreza.

Cabaceiras foi realizado com dinheiro do Ministério da Cultura, e rodado com uma câmera Panasonic 24p. "O projeto mudou muito da idéia inicial. Antes pretendia entrevistar os diretores dos filmes (fiz entrevistas por telefone), os figurantes e moradores, talvez colocar a voz de Durval Muniz, nosso guru e origem da idéia pro filme a partir do livro A invenção do Nordeste e outras artes. Depois, optei por me concentrar num pequeno grupo de personagens e tirar os diretores."

ROLIÚDE - Curiosamente, o projeto Roliúde nordestina que está sendo implantado com apoio do Banco do Nordeste, Ministério da Cultura e Saelpa (companhia de energia elétrica) trabalha no lado oposto do retrato crítico apresentado pelo filme Cabaceiras. Criado pelo professor aposentado da UFPB e cronista do cenário cinematográfico paraibano, Wills Leal, Roliúde nordestina prevê estabelecer Cabaceiras como locação definitiva de filmes que precisem dos cenários naturais da localidade, "que tem o menor índice pluviométrico do Brasil", como bem informa Leal, "perfeito para filmar".

Idéia semelhante levou a indústria do cinema nos EUA a Los Angeles, na Califórnia, no início do século 20. Para selar a referência, uma placa será inaugurada em Cabaceiras no próximo dia 5 de maio medindo, segundo Leal, 80 metros de comprimento por cinco de altura, reproduzindo as palavras "Roliúde nordestina", alusão à famosa placa "Hollywood" instalada nos morros de Los Angeles.

Orçado em cerca de R$ 400 mil, o projeto prevê não apenas uma sede (no extinto Cine Ideal, da localidade), mas também a preservação, documentação e análise dos filmes feitos em Cabaceiras. "Queremos também criar condições reais para os que quiserem filmar na região e estudar as temáticas do cinema nordestino, do folclore e da história".

Leal, que tem também a função de "consultor turístico", informa que faz parte do projeto ainda a iniciativa "Seja artista por um dia", que objetiva estimular o turismo através do cinema. "Vamos encenar cenas famosas de filmes feitos em Cabaceiras com figurantes da cidade. Algumas pessoas já trabalharam em dez filmes seguidos", diz.

CINEMA II
Dilema "regionalista" aflige quem faz e assiste cinema
Publicado em 18.03.2007

Dez anos atrás, Baile perfumado, filme de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, ficou pronto, e muita gente achou interessante um aspecto específico da obra. Com ação na caatinga e temática "cangaço", a paisagem filmada, na verdade, mostrou-se verde florestal, e não o seco amarelado que alguns esperavam. O filme, com trilha pop para ação ambientada nos anos 20 e 30, retomava a idéia de um cinema feito Em Pernambuco depois de 18 anos sem um longa, foi um ponto de partida para representações que têm sido curiosas naquilo que se espera de um cinema dito "nordestino", ao longo dos últimos dez anos, nesta filmografia pernambucana.

Do Baile perfumado ao mais recente Deserto Feliz, este também de Caldas, passando por Amarelo manga e Baixio das bestas, de Cláudio Assis, Árido movie, de Ferreira, Orange de Itamaracá, de Franklin Jr., e O rap do pequeno príncipe, de Caldas e Marcelo Luna, percebe-se um desprendimento para com essas amarras estéticas e temáticas que anexariam os filmes a uma certa escola regionalista, algo bem mais recorrente no cinema do Ceará, ou mesmo na Bahia.

Temáticas podem ser locais, mas os tratamentos geralmente não são, e isso inclui Cinema, aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes, que contém seca, flagelados e caatinga, filmado quase todo na Cabaceiras registrada no curta metragem de Ana Bárbara Ramos. É o filme mais "regional" da leva pernambucana dos últimos dez anos, mas é também um dos melhores. A interação do seu afiado personagem local com um estrangeiro parecem dar ao filme um ar de releitura.

Curiosamente, dois anos depois de Baile perfumado, surgiu um curta metragem local intitulado Chega de cangaço, dirigido por Marcos Hanois, exibido na televisão, satirizando exatamente essa tendência que filmografias regionais têm de filmar o regional. É uma questão que sempre gera debates e/ou discussões entre os que fazem e consomem cinema. Qual seria a maneira mais verdadeira de representar uma cultura? Seria através do folclore e das tradições (o rural)? Ou através do moderno (urbano)? Paulistas filmam em cidades e nordestinos no Sertão? (K.M.F)



postado por cricriticas às 7:39 PM
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Quarta-feira, Março 14, 2007
[ ELLES ]



Tintin Cineclube | programação semanal
Cine-Teatro Lima Penante | Av. João Machado, 67 - Centro


14/03 | quarta | 19h30| SELECTA | Grátis
Elles > mulheres e curtas franceses
Apresentação: Estelizabel Bezerra | Coordenadora de Políticas para as Mulheres: João Pessoa | e Marine Corde | Estudante da Universidade de Lyon 2, França.

1.
Jeanne, bem devagar [Négar Djavadi, França, 15', 2005]
Jeanne já passou dos 60 anos e foi abandonada no acostamento de uma estrada. Ela vaga através das paisagens, até um acampamento deserto,no qual, uma caravana branca encontra-se parada no meio. A caravana carrega dois irmãos setuagenários, Émile e Louis.

2.
O novelo de lã [Fatma Zohra Zamoun, França, 14', 2005]
No ínicio dos anos 70, Mohamed leva Fatiha e seus dois filhos para viver com ele em um subúrbio operário francês. Todo dia o marido sai para trabalhar trancando a casa com chave. Fatiha inventará então meios insólitos para comunicar-se com o exterior.

3.
O número certo [Aurélie Charbonnier, França, 4', 2005]
Uma jovem procura sua alma gêmea em um parque público. Com seu celular na mão ela recebe uma estranha mensagem de texto.

4.
Rosa [Blandine Lenoir, França, 23', 2005]
"Minha querida Rosa, não é contra você, mas veja bem: todos os dois, nós não trabalhamos bastante. Então vamos arrumar uma dama formidável que irá se ocupar de você. Tudo dará certo, você verá..."

Excepcionalmente a exibição acontece no NAC, ao lado do cine-teatro Lima Penante.

A sessão é gratuita e promovida pela Associação Brasileira dos Documentaristas - seção Paraíba (ABD/PB), em parceria com o Núcleo de Arte Contemporânea (NAC), Aliança Francesa, UFPB, Funjope e Cinemateca da Embaixada da França.




postado por cricriticas às 10:48 AM
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Segunda-feira, Março 05, 2007
Tintin Cineclube | quarta | 20h30
Cine-Teatro Lima Penante | Av. João Machado, 67 - Centro


cena do curta 'esperança' de ivo lopes araújo

Assacine - filmes inéditos em João Pessoa
Ingressos | 2 reais (inteira) 1 real (estudantes e abedistas)
07.03.07 | quarta | 20h30

Curtas-metragens de Ivo Lopes Araújo - Ceará

1. Uma folha que cai
[RJ,16mm, 14 min, Fic., 2003]
Sinopse: Um homem de meia idade decide deixar pra trás a cidade grande onde vive.

2. Esperança
[CE,Digital 8, 10 min, 2001]
Sinopse: A trajetória poética de um homem, e sua relação com o sol, a terra, o tempo e o trabalho.

3. Enquadros
[CE,DV, 11 min, 2003]
Sinopse: Um dia na vida de um pintor.


+ Presença do realizador;

+ Discotecagem e Bar em funcionamento até 2h;


Três filmes em curta-metragem do videasta e fotógrafo cearense Ivo Lopes, será a atração do Tintin Cineclube desta quarta-feira, dia 7, a partir das 20h30. O realizador estará presente e debaterá com o público após a exibição de seus curtas 'Esperança' (CE, 2001), 'Enquadros' (CE, 2003) e 'Uma folha que Cai' (RJ, 2003).

Promovido pela Associação Brasileira dos Documentaristas - seção Paraíba, em parceria com o Núcleo de Arte Contemporânea (NAC), Aliança Francesa e Funjope, os filmes serão exibidos dentro do 'Assacine', sessão mensal do Tintin Cineclube onde ocorre o lançamento de curtas inéditos em João Pessoa. A entrada custa dois reais, sendo que estudantes e abdistas pagam um real. Como de costume, haverá festa com discotecagem até 2h.

Formado em cinema pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, Ivo Lopes desenvolve um trabalho autoral com forte inclinação para as artes plásticas e narrativas experimentais.

'Esperança', curta filmado no Ceará em 2001, acompanha a trajetória poética de um homem, e sua relação com o sol, a terra, o tempo e o trabalho. Neste filme, o crítico carioca Marcelo Ikeda identificou um "diálogo direto com o atual cinema nordestino e especialmente com Passadouro, de Torquato Joel, sendo um vídeo no limite entre a ficção e o documentário".

Em seguida, será exibido 'Enquadros', vídeo que mostra um dia na vida de um pintor. A relação com as artes plásticas porém, não fica apenas no âmbito do personagem, e o próprio filme surge como um quadro em movimento, uma construção delicada e consistente sobre o tempo e a expressão artística.

Já 'Uma folha que cai', curta de ficção realizado em 2003 no Rio de Janeiro, lança o olhar para um homem de meia idade que decide deixar para trás a cidade grande onde vive. Rodado em película 16mm, o filme foi premiado no 8º Festival Brasileiro de Cinema Universitário.

A sessão acontece excepcionalmente no NAC, ao lado do Cine-Teatro Lima Penante. Mais informações pelo telefone 3221-8450, no período da tarde.

Mais informações no site www.abdpb.org.br


postado por cricriticas às 11:35 AM
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