Segunda-feira, Maio 29, 2006
[ ÁRIDO MOVIE: SERTÃO E LISERGIA ]
Amin Stepple Hiluey*



Crepúsculo em Salvador, final dos anos 70, o cineasta Glauber Rocha, com os sete buracos da cabeça a mil por hora, pergunta ao também cineasta Jomard Muniz de Britto: "os intelectuais da Fundação Joaquim Nabuco ainda estão no Cuba Libre?"
Rocha, em 2006, é a cidade imaginária de Árido Movie, filme de Lírio Ferreira. Na trilha sonora, Renato e Seus Blue Caps. Grupo remanescente "daquelas tardes de guitarras, sonhos e emoções", da época das "três, quatro doses" de rum com coca-cola. Mas o aditivo energético agora é outro. Jonas é o rapaz do tempo, repórter meteorologista, desses que adivinham chuva e manhã de sol na televisão. Coisa rara no Brasil atual, o Deus Urano arranjou emprego de carteira assinada nos telejornais. Jonas (Hamlet eletrônico?) chega de São Paulo para enterrar o pai, assassinado em Rocha. Numa viagem paralela, três amigos de Jonas, urbanos e maconheiros do tipo recreativos-fundamentalistas, também saem do Recife em direção à Rocha, para encontrá-lo e participar da cerimônia de adeus.

Se Jonas, com sua moderna profissão, tem uma certa originalidade olímpica na concepção de seu personagem, o mesmo não se pode dizer do trio de maconheiros. Na genealogia cinematográfica, eles são "primos" dos "coiseiros" de Meteorango Kid, Herói Intergaláctico, de André Luiz, filme baiano inaugural do udigrudi nacional(1969). E, na teatral, "primos" dos doidões de Trate-me Leão, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone (final dos 70). No Árido, os maconheiros também são engraçados. E escrotos, como todo drogado. São, como se definem, os "Bocas Secas". Numa das seqüências, se deparam com uma produtiva roça de liamba. Provavelmente plantada (à revelia e omissão) em terras e com água do Governo Federal. É uma aula involuntária sobre as novas oportunidades de investimento no sertão. A dança à la Hair dos "Bocas Secas" na plantation ensina muito sobre o Brasil dos agronegócios.

Árido é uma road-expedição, sociológica e antropológica, ao Brasil profundo. Maconha, crime, vendeta familiar, banditismo rural. Prostituição, clientelismo político, misticismo secular. Escassez de água, disputa de terra, choque cultural, sermões desconexos. Ronco de motos, idiotia rural, rodovias duplicadas, paisagem esturricada. Índios aculturados, machismo estereotipado, matriarcado virago. E a oralidade surreal da última Flor do Lácio: o dialeto arcaico sertanejo redivivo, saldo colonial, em diapasão dissonante com o maconhês metropolitano, herança lingüística da contracultura. Está tudo lá nos grotões de Árido Movie.

Como, aliás, sempre esteve. Parafraseando Nelson Rodrigues, o sertão não se improvisa, é obra de séculos. Mas Árido é uma obra de aggionarmento do Cinema Novo dos anos 60. Ou até mesmo do cinema brasileiro dos 90, do próprio Baile Perfumado, com sua seca verde e o uísque importado de Lampião. Ou, ainda, se quiserem, da melhor tradição da literatura regional (dos 20 aos 40). Ao mesmo tempo, reforça a tese de que o cinema brasileiro está condenado a filmar e refilmar o "sol de dois canos" do sertão. Pena mais branda do que a do cinema americano, condenado a ficcionar as guerras em que o Império se mete a cada década.

Nas várias fases do cinema brasileiro, o sertão sempre foi uma location revisitada. A emprestar a sua geografia física e humana para que, através do cinema, o País se conheça e se reconheça em sua própria História, com suas questões sociais e econômicas praticamente inatacadas, imunes à evolução dos tempos, apesar das sucessivas retóricas oficiais de transformação e redenção. O espectador já assistiu ao sertão de cangaceiros sanguinários, folclóricos e até aburguesados. Ao hiperrealismo comovente e denunciador de Fabianos injustiçados e Baleias mortas. Ao barroquismo místico, delirante e salvacionista, a envolver jagunços, camponeses famélicos, cantadores cegos, justiceiros, beatos e santos guerreiros. À paródia e à chanchada de anti-heróis desbundados e cordelizados.

Vez por outra, num criativo fatalismo cíclico, surge um novo olhar sobre a velha paisagem e suas almas secas. É o caso de Árido Movie, com sua originalidade lisérgica a se contrapor ao acumulativo histórico realista, teatralizado. É impossível esquecer ou abstrair a maconha, onipresente no filme. Advém dela a gramática onírica, a impor-se como filtro a deformar e a desmanchar o real, como única forma de remontar histórias aprisionadas quase secularmente na consciência. O que interessa aqui é o relato cambaleante do inconsciente. O realismo já cumpriu o seu papelão histórico. Muito embora o cenário, os personagens, os sentimentos e os conflitos, como sabemos, sejam absolutamente iguais aos de antes. Mas liberto e distanciado do realismo, Árido Movie desbrava o sertão deste início de século com os olhos livres, e é também dessa maneira que o filme pede para ser visto. Malgrado a percepção do ineditismo das factualidades ser absolutamente ilusória, embaralhada pelo "barato" da miragem lisérgica.

Com as decantadas portas da percepção já arrombadas pela ressaca alucinógena da arquivada contracultura e com a profusão de drogas sintéticas, pode-se até afirmar que Árido Movie é um filme fora de época, realizado com urgente atraso, como o sepultamento do pai. E poderia até ser. Mas não esqueçamos que a maconha hoje é um próspero empreendimento econômico da região. Ou da rotineira prevalência do uso político da água. A rigor, Árido é um filme muito além da nossa época. Longe de atrasar, "os ponteiros infectados de tempo" (poeta Ângelo Monteiro), e não são poucos, adiantam em alguns anos o relógio de Árido Movie, dando a necessária continuidade ao continuado nos sertões imemoriais do cinema brasileiro.

Muitos críticos e espectadores se queixam de uma certa irregularidade em Árido Movie. Apontam, não de todo sem razão, que, mais do meio para o fim, os personagens se atarantam nos labirintos solares da história. Ironicamente, chegam atribuir a descontinuidade aos possíveis efeitos da "maresia" soprada durante quase todo o filme. Como os meteorologistas, o diretor Lírio Ferreira às vezes erra a previsão do tempo. Mas quem conhece os pedregulhos do sertão, sabe que o difícil é a travessia, légua mais tirana. Como não se deve desconhecer que o filme é uma elegia assumida à exuberância exaltada (imagens, personagens, diálogos, silêncios). No entanto, é nessa suposta imperfeição que Árido Movie cumpre a sua melhor performance. É como se o filme incorporasse o destino errático - geográfico e humano - do sertão, impregnado de sua, agora atualizada, taxa luminosa de desordem. Beleza mais que imperfeita, falsa promessa de felicidade. Bem brasileiro.

No entanto, nada mais transcendente. Basta recordar de uma das frases finais do filme, na seqüência da instalação sobre água, já em São Paulo: "Io (a lua de Júpiter) será o nosso próximo endereço". O papo é lunático só na superfície. Os astrônomos americanos, entre uma guerra e um filme sobre essa guerra, já descobriram que o satélite jupiteriano tem água. Pragmáticos como são, e também "viciados" em água, os americanos compreendem bem a profundidade da frase da lameira do caminhão-pipa que transita na estrada poeirenta de Rocha: "aonde a água chega, a água faz o resto". Fato curioso, essa frase-síntese da "sopa primordial" da vida, e também do próprio Árido Movie, é de um homem forte de Getúlio, Agamenon Magalhães, interventor de Pernambuco durante a ditadura Vargas. Apesar de extremamente violento, Agamenon não perdia uma missa dominical. Em busca da água benta da transcendência?

Assim, Árido Movie reescreve a profecia alada do Conselheiro: o sertão vai virar Io. Enquanto colabora para editar a novíssima história do cinema brasileiro. A exemplo de Amarelo Manga, de Cláudio de Assis, e de Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Com Árido, o cinema pernambucano comprova mais uma vez: é amarelo mas tem saúde.

Em tempo: os intelectuais do Joaquim Nabuco continuam no Cuba Libre?

Quanto ao cineasta Jomard Muniz de Britto, a única experiência dele com droga se limitou a um comprimido de aspirina com leite quente e canela, receita do médico João Guimarães Rosa para a cura da gripe.

*Jornalista e Cineasta



postado por cricriticas às 6:50 PM
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Sexta-feira, Maio 26, 2006
Laboratório de Roteiro de Curta-metragem

Período de inscrição: até 02 de junho
Número de vagas: 10
seleção: 05 a 09 de junho
Informações e inscrições na Coex, terreo da Reitoria da UFPB Fones: 32167352/7689

O Laboratório de Roteiros consiste na discussão, reflexão e acompanhamento de propostas de roteiros apresentadas pelos selecionados a se desenvolver ao longo de 03 meses. Durante esse período, além da discussão dos projetos apresentados, aulas serão ministradas por especialista em dramaturgia, formatação de projetos e captação de recursos. Análise de filmes, sob a ótica dos roteiros, serão parte complementar das atividades.

A seleção se dará através do preenchimento de uma ficha de inscrição contendo story-line ( resumo da proposta), objetivo e justificativa da mesma.

Coordenação: Torquato Joel


postado por cricriticas às 3:10 PM
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Terça-feira, Maio 23, 2006
Programação semanal MAIO - 06
:::::
>>>>>>>>>>{24/05 | Quarta | Cine-teatro Lima Penante | 19h30 | Grátis}

TINTIN CINECLUBE APRESENTA CURTA DE DIRETOR PORTUGUÊS EM SOLO PARAIBANO

> "A gente perde... A gente ganha".
Dir. Marcos Coimbra [João Pessoa - PB, 12 min, doc, 2006]

Sinopse: Influência da escola Casa Pequeno David na comunidade do Roger. Eixo principal de abordagem: futebol.

>> Making of do filme.

>>> Debate com o diretor Marcos Coimbra após a sessão.

ABD-PB /// PONTO DE CULTURA URBE AUDIOVISUAL

A ABD-PB funciona diariamente nas dependências
do Cine Teatro Lima Penante e oferece a
todos que se interessem um
modesto acervo de filmes e vídeo paraibanos,
além de livros e catálogos de cinema brasileiro.
Seu endereço atual é: av. João Machado, 67,
Centro {no mesmo prédio onde funcionam o NTU
[Núcleo de Teatro Universitário] e o
NAC [Núcleo de Arte Contemporânea]}
83 3221 8450 | abd_pb@yahoo.com.br |
segunda a sexta, de 9h00 as 13h00 / 15h00 as 18h30


postado por cricriticas às 2:26 PM
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Sexta-feira, Maio 19, 2006
'Oficina de Cineclubismo' vai ocorrer em Centro da Cidadania, no Valentina

A segunda edição da 'Oficina de Capacitação em Cineclubismo' vai ser realizada no período de 29 a 31 deste mês, no Centro de Referência da Cidadania 'Félix Cainho' do Valentina Figueiredo, das 19h às 21h30. A inscrição é gratuita e pode ser efetuada desta quarta-feira (17) ao dia 26, no local da atividade. Estão sendo oferecidas 20 vagas que podem ser ocupadas por cinéfilos, estudantes e professores.

A oficina é uma promoção da Prefeitura de João Pessoa (PMJP), por intermédio de sua Fundação Cultural (Funjope), e será ministrada por Zonda Bez e Liuba de Medeiros, que mostrarão aos participantes como criar e manter um cineclube na comunidade.

Programa - Durante os três encontros com três horas aula cada, o participante vai poder receber logo no primeiro dia noções gerais de audiovisual, através de um programa que contempla a história, as principais tendências estéticas, o papel da imagem na sociedade contemporânea, sua influência na formação das identidades nacionais, regionais e locais; e assistir curtas (ficção e documentário), além da discussão com o grupo.

No segundo encontro sobre cineclube vai ser apresentado um breve histórico no mundo, no Brasil e na Paraíba; a influência na formação crítica do espectador e de realizadores; exibição de curtas e discussão com o grupo; tópicos para discussão dos filmes: elementos técnicos, estéticos e de linguagem; elementos necessários para montar um cineclube. No último dia, o grupo de trabalho deverá apresentar proposta cineclubista para a comunidade. Os outros tópicos da programação são adequações à realidade do lugar; como montar e manter a atividade; como fazer a comunidade participar; divulgação; assistir filme; discussão final.

O treinamento faz parte da segunda etapa do 'Projeto Cine Volante', que durante o ano passado realizou em sua primeira fase no bairro de Mangabeira, a primeira edição da Oficina de Cineclubismo, diversas exibições de vídeos seguidas de um debate entre os espectadores e um produtor presente nas sessões. A idéia é estimular o surgimento de cineclubes em vários recantos da Capital, bem como a formação de multiplicadores do ideal cineclubista. Para isso, a Funjope está proporcionando a isenção da taxa de inscrição.

Circuito de cinema - E por falar em 'Cine Volante,' a próxima parada do circuito de cinema é nesta quarta-feira (17), às 19h30, na Escola M. Ângelo Francisco Notare, no bairro do 13 de Maio. E nesta quinta-feira (18), às 16h, haverá exibição no bairro do Geisel, na Escola Cenecista 'João Régis Amorim'. Na quarta-feira da próxima semana, a sétima arte chega à comunidade da Praia da Penha, com sessão às 19h30 na Escola Antônio Santos Coelho e, na quinta (25), a partir das 16h, o projeto chega mais uma vez ao Centro de Capacitação dos Professores (Cecapro), na Avenida Beira Rio. A última parada circuito programada para este mês é no dia 31, às 19h30, na ONG Casa Pequeno Davi, no Róger.

Os moradores desses dois bairros vão ter oportunidade de assistir a três curtas de ficção de cineastas paraibanos - 'A Árvore da Miséria', de Marcus Vilar, lançado em 1997; 'Passadouro', um filme de ficção com elementos de documentário de Torquato Joel, lançado em 1999 e 'Eu Sou o Servo', de Eliézer Rolim, lançado em 2001. Após as exibições, a comunidade participa de um breve debate, com a participação dos autores.

Cineclubismo - Desde o começo do século passado, as pessoas interessadas em discutir o que viam nos filmes já se reuniam com o objetivo de melhor compreendê-los; assim, nascem os cineclubes como espaço de interação entre o público e a obra. Anos mais tarde, com a popularização do vídeo, as pessoas passaram a ver os filmes em casa, diminuindo significativamente os espaços de cineclubismo.

Já neste século, com a ampliação do interesse pelo audiovisual, o cineclube volta a ser lugar privilegiado para a formação de novos realizadores e a difusão do conhecimento das linguagens do audiovisual.

[fonte: www.joaopessoa.pb.gov.br/noticias 17/05/2006]



postado por cricriticas às 3:29 PM
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Quarta-feira, Maio 03, 2006
Duas produções paraibanas são premiadas em festivais nacionais



Por ASTIER BASÍLIO*

O cinema paraibano está em alta. Neste final de semana, O Buraco, vídeo de Taciano Valério, e O Meio do Mundo, filme de Marcus Vilar receberam premiações em importantes festivais realizados no Rio de Janeiro, Sergipe e Mato Grosso.

O documentário, filmado em digital, que conta a história de um ex-combatente da segunda guerra, O Buraco, ganhou o primeiro lugar em sua categoria nacional no IX Festival Universitário de Cinema e Vídeo da UFRJ. O vídeo foi a única produção paraibana concorrente.

O curta de Marcus Vilar recebeu os prêmio BNB, conferido no "6º Curta-se - Festival Luso-Brasileiro de Aracaju", no valor de R$ 10 mil. O filme ganhou também o prêmio de melhor direção no 13º festival de cinema e vídeo de Cuiabá, no Mato Grosso.

O Meio do Mundo, curta-metragem de ficção baseado no conto do escritor sergipano Antônio Carlos Viana, narra o rito de passagem de um adolescente que é levado pelo pai à casa de uma prostituta para ter a sua iniciação sexual. O tema, um tanto delicado, recebeu um tratamento poético e sutil. 'Nos lugares em que eu tenho ido, exibindo o filme, as pessoas têm ressaltado esta cena e elogiado a forma como foi feita", informa Marcus Villar.

Ter ganhado o prêmio em Sergipe, Estado natal do escritor Antônio Carlos Viana, teve um gosto especial, afirma Marcus Vilar. "Como o autor do conto é daqui, eu me senti meio que em casa. O livro, onde este conto foi publicado, teve uma indicação para o vestibular e foi proibido aqui. Isso gerou uma polêmica. A comissão julgadora, que me deu o prêmio, era toda de fora", avalia Vilar, que aproveitou sua estada em terras sergipanas para intensificar o diálogo e o intercâmbio com as pessoas que trabalham em cinema por lá.

Taciano Valério, apesar de jovem, está na faixa dos 20 anos, já está consolidando seu lugar na cinematografia local, como um nome expressivo da novíssima geração. Ele é a referência de um trabalho maior e de um núcleo que está se organizando em Campina Grande, na produção de audiovisual, que teve como grande impulso a criação do curso de Arte e Mídia da Universidade Federal de Campina Grande.

O Buraco foi o grande vencedor do Fenart do ano passado. O vídeo levou os quatro principais prêmios: Melhor Direção, Melhor Documentário Paraibano, Melhor Documentário Nacional e o Prêmio Cabeçote, concedido pela Associação Brasileira de Documentaristas -PB(ABD-PB).

O personagem de O Buraco aparece a primeira vez no documentário Lembranças Febianas, feito com vários ex-combatentes.

[* extraido do Jornal da Paraíba, em 03/05/2006]



postado por cricriticas às 6:38 PM
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